Michellen Fernandes escreve mensalmente, sempre nas terças-feiras.
Emoções, família e carreira

Sabemos que vida profissional e vida pessoal devem estar em constante equilíbrio e nossas emoções têm um papel fundamental neste processo. Hoje, inicio uma nova etapa junto ao Portal Negócio Feminino. Durante algum tempo escrevi como colunista para a revista eletrônica e agora retomo como editora responsável pela  coluna FAMÍLIA. Uma imensa responsabilidade e gratidão por assumir esse papel e trazer temas relacionados a esse pilar fundamental para o sucesso profissional do universo feminino.

Como educadora Emocional Parental, minha missão é transformar, através da educação emocional a vida de famílias, filhos e educadores de uma forma prática e inspiradora, contribuindo para um sistema relacional e familiar  saudável. Para inaugurar essa coluna vamos falar sobre emoções, sistema familiar e carreira.

Somando ao conteúdo, teremos uma entrevista na íntegra de Bruna Bittencourt, 33 anos, Relações Públicas com MBA em Gestão Comercial. Bruna trabalha há nove anos no Shopping Iguatemi de Porto Alegre – RS no cargo de gerente regional do Mall e Mídia, área de grande visibilidade e responsabilidade, por gerar resultados financeiros e significativos para companhia. É casada com Adriano Farias, 40 anos, e concilia sua carreira executiva com toda a demanda familiar e os filhos gêmeos, Pérola e Valentim de um ano e sete meses, respectivamente.

Bruna é uma fonte inspiradora, um exemplo de equilíbrio entre essas relações e a confirmação de que um sistema familiar saudável influencia positivamente na carreira profissional.

Vamos ao tema:

Você sabia que suas emoções e seu sistema familiar influenciam diretamente na sua carreira?

Uma casa começa sua construção pelo alicerce, uma base sólida que a sustente, depois dela é que vêm as paredes e, sobre elas, o acabamento, tudo sustentado pelo alicerce – Família, nossa carreira pode ser vista como parte dessa construção sustentada por o alicerce da educação familiar através das emoções.

Durante um tempo trabalhando com o desenvolvimento de mulheres empreendedoras, pude perceber que além de algumas crenças que as limitavam no sucesso profissional o sistema familiar desestruturado vinha como um dos grandes fatores de insucesso, onde a demanda a ser trabalhada era muito mais relacionada às habilidades emocionais do que técnicas. As empresas, por sua vez, estão em busca de profissionais competentes, habilidosos e com uma bagagem ampla de conhecimento, mas também buscam profissionais focados, que saibam lidar com os desafios do cotidiano, que apresentem determinação, que consigam relacionarem-se com os demais profissionais, que recuperem a resistência mesmo nos momentos difíceis, que ultrapassem seus limites e tenham poder de superação.

Quanta cobrança! Precisamos ser multitarefa, profissionais, mães, pais, educadores, esposas, ter vida pessoal, social e muitas outras demandas, e, além disso, é preciso administrar a culpa que nos cerca em não dar conta de todos esses papéis.  É com um EU bem fortalecido e o gerenciamento de si mesma que tornam essas demandas mais leves, a teoria da Inteligência Multifocal criada pelo psiquiatra Dr. Augusto Cury diz que: “Nós não controlamos nossos pensamentos e nem nossas emoções, nosso EU representa a capacidade consciente de decidir.” Logo, se nós não nos fortalecermos seremos dirigidos por fenômenos inconscientes da construção de nossos pensamentos e emoções. Administrar as emoções é o nosso grande direito, direito esse que infelizmente é desconhecido por muitos, direito de ser feliz de ser livre das mágoas de ter prazer de viver, de navegar com segurança nas turbulentas águas das relações familiares e sociais.

O profissional que consegue desenvolver o gerenciamento das emoções está à frente nessa corrida em busca do equilíbrio entre família e carreira, construindo uma base sólida para seu sucesso, ele está preparado para enfrentar as situações adversas do dia a dia e manter seu foco, realiza as suas atividades e mantém o bem-estar dentro da sua equipe e dentro do seu lar.

Nas famílias funcionais os papéis estão muito bem definidos. A família organiza-se em função desses papéis que cada elemento desempenha e das regras familiares, que devem ser negociadas sempre que possível. É primordial que as crianças saibam discernir o que é permitido e proibido. Todas as famílias têm problemas, nas as funcionais, quando há problemas, estes são discutidos no momento certo,  com a pessoa certa na hora certa. As emoções e os sentimentos são expressos claramente. Os assuntos são tratados cara a cara, olhos nos olhos, de forma clara e concreta.

Em síntese, se a sua estrutura familiar não está funcionando, não está levando a comportamentos saudáveis, a relacionamentos harmoniosos e construtivos. Os vínculos entre os membros estão enfraquecidos, precisando ser trabalhados, retomados.

É preciso reorganizar os papéis, as funções de cada membro para que a família funcione da melhor forma que faça sentido para todos os seus participantes. Isto é o que se chama de família funcional, o alicerce do sucesso profissional da paz na família e do desenvolvimento emocional dos filhos.

Confira a entrevista inspiradora de Bruna Bittencourt, realizada por email para não comprometer a agenda da mulher, executiva que considera a família bem estruturada e feliz é a base para o seu sucesso.

 

Michellen Fernandes – Como você vem se movimentando/organizando seu sistema familiar para equilibrar a sua vida pessoal (mãe, esposa, bruna) e a vida profissional?
 

Bruna Bittencourt – Para resumir um pouco o estilo de vida, agora são 23h30min do domingo e estou conseguindo responder às perguntas, pois as crianças acabaram de dormir, já organizei a rotina da semana e agora me sinto mais tranqüila para me dedicar ao questionário (risos).
Então, desde quando os bebês nasceram tentei organizar, na medida do possível, uma rotina com eles para que possamos realizar as tarefas em conjunto para ganharmos tempo, por exemplo, os dois se alimentam no mesmo horário, tomam banho no mesmo horário, enfim, pequenas organizações que facilitam muito o dia-a-dia.

Outra forma que me ajudou muito foi me cercar de pessoas profissionais que tenho confiança, que fazem com que consigo sair para trabalhar me sentindo mais segura. Minha mãe também é bem presente na vida das crianças, o que ajuda muito na ampliação do sentimento afetivo deles. Uma pessoa que as crianças (e nós) se sintam seguras é fundamental neste processo. A participação do marido ativamente, não como ajuda, mas também como membro prioritário deste momento contribui muito também, pois minha vida profissional é muito corrida, assim como a maior das mães modernas, e não teria equilíbrio se não fosse assim.

No ano que voltei de licença maternidade (em fevereiro/2017) foi o melhor ano da minha carreira, não apenas de resultado financeiro gerado, mas também foi um ano de grandes projetos, grandes conquistas, que deu um destaque ainda maior para o meu trabalho. Isto foi fruto de um sentimento muito genuíno, primeiro, de estar extremamente feliz (e cansada, muuuito cansada, mas ok!), sentindo-se ainda mais segura e motivada a ser melhor, não apenas a Bruna Profissional, mas a Bruna Pessoa, ser um ser humano melhor, uma pessoa que pode sim contribuir na vida das pessoas de forma positiva e este tem sido a forma que hoje acordo todos os dias: querendo ser melhor e fazendo o melhor!

Tento conciliar todos os papéis dando qualidade de tempo a cada um deles. Quando estou com meus filhos passo meu tempo integralmente com eles, dando atenção, carinho, brincando, enfim, transformando nosso mundinho em só nosso!! Trago sempre o amor e o amparo para as nossas relações. Se eu e o meu marido temos algum tema difícil para discutir, deixamos para quando não estamos com eles.

Normalmente almoçamos juntos, somente nós dois, para falar de assuntos que necessitam de mais seriedade ou ação específica. Já quando saio para trabalhar, vejo aquelas carinhas dando tchau no portão tem momentos fico com o coração partido, arrasado, mas penso que isto também é bom para eles, tenho a consciência que eu estando feliz, e meu trabalho me deixa muito feliz, chegarei em casa ainda melhor. Sei que sentirão orgulho no futuro. Chego no trabalho e vivo intensamente o trabalho, os desafios diários. Meu trabalho também me dá flexibilidade de cuidar deles se for necessário. Entendo que as empresas também têm um papel fundamental na vida pós-mãe.

A vida com o marido, que também tem uma vida mega corrida como a minha, sempre tentamos uma ou duas vezes por semana ter o nosso momento, sair para jantar, almoçar só nós, para falar de projetos futuros e compartilhar nossas angústias e felicidades. Precisamos ter um espaço só nosso!

 

Michellen Fernandes - Sua família é super saudável! Você consegue perceber o impacto de um sistema familiar funcional no seu resultado como profissional? Me conta como?
 

Bruna Bittencourt - Como citei acima, acredito que ser mãe/pai nos dá uma grande oportunidade de olharmos pra nós, de como exercemos nossos papéis neste mundo, de que filhos queremos deixar para este mundo. Esta pergunta é o que eu me faço todo dia. O ambiente de casa é o que levamos muitas vezes para o trabalho. E vice-versa. O individuo é o mesmo.  Então, se tiver um ambiente com amor e diálogo (mesmo nos momentos ruins, ter serenidade nas atitudes) isto impacta diretamente na vida profissional. Em atitudes que fazem diferença. Vejo na criação dos filhos, em suas atitudes, valores que pra mim são importantes, como a atenção com as pessoas (meus filhos interagem com o Presidente da minha empresa e com o meu porteiro da mesma forma, com amigos brancos e negros), além de ter que lidar com as frustrações deles e criar conexões com a "minha vida real". A maternidade me ajudou a ter mais empatia, mais tranqüilidade e ainda mais amor nas minhas relações.

 

Michellen Fernandes - Como você administra seu stress, ansiedade (suas emoções como um todo) advindas do teu trabalho para não impactar negativamente no seu ambiente familiar? E como você administra seu stress, ansiedade, cansaço, sono (suas emoções como um todo) advindas do ambiente familiar   para não impactar negativamente no trabalho?

Bruna Bittencourt - Sinceramente, o mundo real é mais complexo que a vida das redes sociais (risos)... É sempre aquele sentimento de que não estamos conseguindo dar conta de tudo. E o pior é que isto é real. Não damos conta mesmo de tanta demanda. Os dias precisariam ter mais horas. Mas, a questão é que quem disse que temos que dar conta de tudo? Rsrsrs

A sociedade cria as "super-mulheres", as "super-mães", e ter que administrar a frustração de não sermos o que a sociedade cria é muito difícil. Ser magra, cabelos lindos, mega profissional, mãe dedicada Tenho uma história que conto de uma amiga que mandou o filho de quatro anos (ela tem mais dois meninos gêmeos de um ano) para a escola com roupa de homem-aranha na festa do Harry-Poter. Só se deu conta quando as mamães "perfeitas" começaram a mandar as fotos dos seus filhos com fantasias profissionais, lindas, elaboradas.... foi quando ela viu que havia se enganado e saiu voando para ir atrás de criar um harry-poter e no final, muito cansativo, mas deu tudo certo (tudo bem, ia criar um trauma na criança kkkk). Ela ficou arrasada e eu fui perguntando o que as mães faziam (a maioria era somente mãe), outras haviam mandado as babás arrumaram as fantasias, e ela, uma mãe normal, que trabalha fora e administra uma unidade familiar mostrou como é a nossa vida: uma batalha a cada dia, uma emoção a cada demanda, mas que cada um do seu jeito, vai conseguindo administrar tudo com muito amor.

Dentro da minha rotina eu faço terapia semanalmente e sempre busco fazer algo que me dê prazer (sair para almoçar com minha família, por exemplo), como forma de compensar todo o cansaço físico e mental. Busco também estar em contato com a natureza sempre que possível, pois nela encontro uma energia diferente. Hábitos pequenos adaptei para estar perto deles, por exemplo, faço a unha semanalmente em casa para estar junto com eles. Vou ao supermercado com meus filhos. Insiro eles na minha rotina. Ahhh, mas faço questão de ter um momento só meu, mesmo que seja uma ida na padaria com o som bem alto no carro, curtindo somente o meu gosto musical e deixando os pensamentos vagos. 

Tem dias que chego em casa sugada de tanta energia depositada no trabalho, mas ao chegar vou direto para o tapete de atividade com as crianças e ali parece que o mundo é infantil, mais lúdico e menos chato! Isto me abastece em vários momentos!!

Administrar a rotina do trabalho, após noites sem dormir ou um criança doente, por exemplo, é sempre mais difícil, pois o pilar familiar é o mais importante, ou o mais emocional. Tento diariamente pensar que as duas "brunas" dependem uma da outra. Tento, a base de café, e muito bom-humor manter o foco, mantendo a gratidão de ter uma família e um trabalho que eu gosto em sintonia. O importante é fazer o que se gosta ou aprender a gostar do que se faz! Isto pra mim é fundamental.

 

Michellen Fernandes - Qual a importância do casal neste contexto?

Bruna Bittencourt - Total, pois precisamos nos apoiar, compartilhar os papéis e funções, além de se sentir amada e desejada, como mulher, independente se estamos acima ou abaixo do peso, se estamos arrumadas ou bagunçadas. A relação de respeito é fundamental. Se tiver uma relação de amor, este sentimento será absorvido pelos filhos. As crianças são mais sensitivas e espertas do que imaginamos. Sem o meu marido tudo seria muito difícil.

 

Michellen Fernandes - Depois que se tornou mãe, pensou em desistir da carreira profissional, consegue perceber as emoções inseridas ai?

Bruna Bittencourt - Não. Na verdade muitas pessoas do meu ambiente de trabalho falavam que eu não voltaria. Passei um gestação de risco e fiquei muitos meses de repouso (em casa e 60 dias no hospital), durante este período eu sentia muita falta da rotina do trabalho. Me conectava na gestação, mas sentia falta de mim, daquela pessoa que acordava a mil, cuidava da pele do cabelo, se maquiava e voava para uma imersão de trabalho por 10/12h e chegava em casa feliz após um dia assim. Quando os bebes nasceram eu me senti mãe de verdade, amei ficar somente com eles, mas percebi o quanto eu era feliz também tendo outras atividades. Foi quando passou pela cabeça ter vários projetos distintos, mas sempre pensando em manter uma carreira profissional. Acredito que o equilibro é sempre a melhor opção. Ter qualidade é não somente quantidade de tempo com os filhos. Para o meu estilo de vida, ser somente mãe não me deixaria feliz por completo. Claro que penso às vezes em desacelerar, em imprimir ritmo de trabalho diferente para não perder fases importantes da vida deles, mas tudo olhando para o que vai me fazer feliz, por mim, não por eles. Acho que seria injusto colocar neles, aquelas frases "parei de trabalhar pelo fulano quando ele nasceu", sendo que a decisão é sempre nossa, do que NOS faz realmente feliz.

Atualmente, depois que me tornei mãe, minha carreira está ainda mais destacada e eu buscando novas formas de ser melhor (voltei a fazer inglês, concluindo um MBA, e buscando novas oportunidades), pois me sinto preparada e mais realizada tendo eles junto comigo!
Outra coisa que após ter filho eu descobri: que não temos controle de nada!!! Ter filhos mostra pra nós que a vida pode nos surpreender e precisamos ter resiliência e sabedoria para agir em casa situação, seja ela qual for. Não tem fórmula de nada!!

 

Michellen Fernandes - Dicas para mulheres que estão com dificuldade para equilibrar vida pessoal e profissional?

Bruna Bittencourt - Primeiro, tira a culpa! Acaba com este rótulo que temos que ser "super-mulheres"! Não somos e não seremos. Se tivermos esta consciência, sem julgamento, mas com acolhimento, tudo fica mais fácil!! Meus amigos me cobram que não participo mais das festividades e confraternizações, por tempo ficava chateada de não estar presentes, mas entendi que neste momento não conseguirei estar em todos os mesmos compromissos que antes e hoje não sofro mais. Tento conciliar quando dá, mas deixei claro a situação a todos e eles hoje nem me cobram mais. Outra ação importante é focar na qualidade de contato, seja pessoal ou profissional, estar realmente conectada nos ambientes enquanto estiver. Se estiver com os filhos, saia do telefone (whats, e-mail, etc). e curta eles. Dê atenção de forma genuína. Se estiver com o marido, a mesma coisa. Além disto, crie algum momento só de vocês. Crie espaços só do casal (mesmo que seja depois das crianças dormirem...).

Deixe seus filhos com quem te dá segurança (babá, escola, familiar e etc) e confie nas pessoas. Verdade que ninguém vai cuidar como nós, mas nem sempre conseguiremos protegê-los e blindá-los para o mundo. Use a tecnologia ao seu favor e vá acompanhando as rotinas deles, mas sem interferir. E faça o que te deixa feliz!! Seja o que for, seja o que quiser!! Trabalhe naquilo que dê prazer e que você sinta orgulho de estar. Não tem nada pior que você acordar todos os dias infeliz no que faz. Isto sim não vale o tempo com os filhos. E encare o trabalho como mais uma atividade dentro de todas as outras, não priorize nada, dê o espaço para cada coisa acontecer e lembre-se de ser VOCÊ! Olhe pra você, cuide de você para poder estar bem para cuidar do próximo.