Tássia escreve quinzenalmente.
De repente 30... e 1

Este ano, na sexta-feira santa, também foi meu aniversário. Um bom dia para celebrar, afinal, é uma data de muita reflexão para os cristãos sobre o sacrifício de Cristo, ou de muito chocolate para os que só se aproveitam da festividade para ingerir calorias sem culpa. No meu caso, para as duas coisas. Três, porque teve bolo de aniversário também. Enrolações à parte, eis que enquanto escrevo esta coluna me dou conta de que ainda ontem era março de 2017, e eu comemorava a entrada na terceira década de vida. E agora, cá estou em 2018 transitando pela casinha dos 30 bem satisfeita com o peso da idade.

Peso da idade? Que história é essa? Peso, só ser for o da consciência por ter comido muito chocolate, ou o que aparece na balança pós-feriado. Falo isso porque é bem comum eu ouvir por aí, de amigas ou conhecidas, sobre a tal crise dos 30, pela qual ainda não passei (e espero não passar). De crise já bastam as crises de ansiedade, a crise econômica ou a crise de identidade. São lamúrias como: “Meu Santo Antônio está de cabeça pra baixo há anos e nada de namorado”. “Todas as minhas amigas estão grávidas e eu vou ficar pra tia”. “Meu Deus, já tenho 30 anos e ainda não casei”. “Até quando vou andar de ônibus? Já devia ter um carro com essa idade”. “Já tenho 30 anos e ainda não me realizei profissionalmente”. “Preciso de um botox urgente porque estou cheia de rugas e gorda”. Escuto frases como essa o tempo todo, inclusive poderiam ser ditas por mim, visto que me enquadro em quase todas as afirmações. Isso, é claro, se eu pensasse dessa forma dramática, o que, felizmente, não é o caso.

Vejamos. Com 30 anos, enquanto minhas amigas casavam, eu fiquei solteira. Se eu sofri? Claro que sim. Foram longas duas semanas. Na verdade, felizmente, foram só duas semanas. E o carnaval estava só me espiando e dizendo ao estilo Bial: “Vem aqui pra fora curtir o verão, sua linda”.  Olhando o copo meio cheio, não é que a eliminação (de relacionamentos) têm vantagens. Como eu estava triste na primeira semana, eu não comi. Resultado: emagreci! Obrigada ao ex. Mesmo sendo educador físico, em quase quatro anos de relacionamento, ele nunca foi tão efetivo quanto quando ele saiu de cena. Pois bem, enquanto eu voltava pra noite (algum dia sai dela?), minhas amigas faziam filhos (e estão felizes com isso, e eu feliz por elas, que fique claro). Mas o tal do relógio biológico que apitava nelas, em mim seguia (e segue) no silencioso. Por sinal, deve ser por isso que estou sempre atrasada. O despertador nunca toca. Nenhum deles...

Seguindo o baile (gíria de tia, eu sei), com 30 anos eu fui morar no meu apartamento próprio, sozinha. Ah, a liberdade, eu nunca imaginei que essa palavra seria minha alma gêmea. Que casamento perfeito. A casa sem nenhuma TV ligada gritando nos meus ouvidos, sem ninguém bagunçando minha arrumação e nem arrumando minha bagunça, o prazer de acordar sem precisar dar bom dia e nem bater papo (não tenho saco pra isso de manhã).

Com 30 anos, desapeguei da ideia de juntar dinheiro pra ter um carro. Aceitei que minha carteira de motorista serve pra eu entrar nas baladas. Entendi que sou uma pessoa muito mais fina: uso motorista particular (um tal de Cabify) e aviões. Comprar passagens me dá bem mais tesão do que encher o tanque de gasolina. A verdade é que não tenho vontade e nem necessidade de ter um carro, e não é vergonha nenhuma isso. Sou sustentável, oras. Tá, forcei a barra, mas é uma boa desculpa.

Profissionalmente, com 30 anos não virei a repórter da revista Superinteressante como eu queria ser quando entrei na faculdade, mas descobri que o sonho de morar no Rio passou, e que estou no emprego que gosto, com as pessoas que gosto e fazendo o que gosto. Posso dizer que sou bem sucedida, não?

Esteticamente, com 30 anos me senti mais jovem do que com 20. Me exercito diariamente, me alimento de forma mais consciente e saudável, me gosto mais quando me olho no espelho.

Com 30 anos vivi a melhor fase da minha vida, de autoconhecimento, realizações, amor próprio, liberdade e evolução. Virei balzaquiana sem crise. Mas se amanhã eu fizer tudo seguindo o script da trintona “perfeita”: casar, ter filhos, ir pra Super e comprar um carro, tudo bem também, desde que aconteça porque quero e não porque o mundo quer que seja assim. Resumindo, a questão é: não precisamos nos frustrar por não atendermos as expectativas que nem sempre são as nossas..

E eu tenho uma informação valiosíssima para você que está em crise. Há estudos que sugerem que a felicidade verdadeira começa aos 33, que atingimos o melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional aos 34, que 35 anos é a melhor idade, e que chegamos à verdadeira satisfação aos 38. Não é uma bela década? Então, crise pra quê, gata? Vem aqui pros trinta (e um) ser feliz também.