Cris escreve todas as sextas-feiras.
Retrovisor da vida

 

Depois de um dia cheio de trabalho, sento para ler um livro de uma das minhas autoras favoritas e acontece…

Acordo pela manhã, com a chuva brincando na janela e acontece…

No caminho para o trabalho, a mesma rota há anos desenhada por mim, parece inerte e acontece…

No rádio, toca uma música, aquela música, daquele verão e acontece…

Passeio entre as gôndolas do supermercado, compro um lindo vaso de orquídea e acontece…

Chego no parque e começo a correr no compasso da música que toca do meu iPod e acontece…

Sinto a brisa beijar meu rosto lentamente e acontece…

Experimento uma nova comida e acontece…

Degusto aquele nhoque ao sugo e acontece…

Coloco meus pés na areia da praia e acontece…

Mergulho no mar de águas mornas e acontece…

Brindo com meu drink preferido e acontece…

Encontro com as amigas, conversas soltas, risos desprendidos e acontece…

A prece se faz em meus lábios e acontece…

A gratidão toma conta de minha alma e acontece…

As lágrimas encharcam meu travesseiro e acontece…

Um cheiro que invade minha casa e acontece…

Um rosto me vem em mente, faz-se um nó no estômago e acontece…

Abro um vinho e no terceiro cálice, acontece…

Abro meu computador e começo a ensaiar algumas linhas e acontece…

Pego meu cartão de embarque e acontece…

Vou ao cinema, escolho um filme qualquer para fazer passar o tempo e acontece…

Zapeando os canais da TV a cabo, aquela reprise se apresenta e acontece…

Ouço um som que vai da praça ao lado de onde moro e acontece…

Planejo uma viagem aqui pra perto e num passe de mágica, acontece…

Derramo as gotas do chuveiro sobre meu corpo cansado e acontece…

Minha boca encontra a sua e acontece…

Meus olhos perdem-se nos teus e acontece…

Colo de mãe e de vó, sempre fazem acontecer…

Brigo com o espelho, com o carro ao lado, com o telefone e acontece…

A vida tem dessas coisas. O retrovisor está ali, a postos, ele faz acontecer, nos leva ao passado. Nele, somos visitantes do nosso tempo. Nele, permanecemos, avançamos, voltamos, percorremos os rios da consciência, mergulhamos no inconsciente dos nossos sonhos e acordamos em nós. Nem sempre fortalecidos, nem sempre com total clareza, mas sim com aquele fio de possibilidade, do entendimento. De alguma forma, o sentido pode tocar nossa alma e abrir nossa mente.

Nossas escolhas do agora, nos levam a levitar por onde já andamos e no vai e vem da existência, presente do universo, podemos estreitar os laços com a gente mesmo, nos encontrar, nos amar e perceber que sim, podemos nos transformar, basta aquela força de vontade, aquela firmeza, o coração no ritmo certo, a respiração fluindo com o sangue em nossas veias. Basta querer. Olhar para o ontem, viver o hoje e acreditar no depois, que acontece.