Cris escreve todas as sextas-feiras.
COMO NENHUM OUTRO

 

Interminável é essa dor que me devora. Meus dias estão cinzas. Nada sei sobre mim. Nada sei sobre o mundo. Ancorei. Mergulhei na terra seca. Árida. Nadei em minhas próprias lágrimas. Desaguei.

Não encontro o bilhete de volta. Só a passagem de ida. A vontade de retornar é tamanha que choro ainda mais. Quem sabe assim, a correnteza mude. Mas a sorte se foi. Afundou.

Olho o céu. É noite. Mesmo assim, não há estrelas. Nem lua. Caminho no limiar estreito da desforra. Abandonei-me. Onde estou, o vazio habita. Padeço de minhas próprias escolhas. Ah! As escolhas.

Rompi com o mundo para ficar com você. Mandei todos para aquele lugar. Não queria saber de mais ninguém. Criei armadilhas para mim. E cai em todas elas. A cada tombo, a cegueira emergia. Não me permiti enxergar a realidade. Ainda valia a pena fechar os olhos. Ainda restava mais uma noite ao seu lado. Mas essa ausência de acessos me consome. Sinto-me nada perante tudo. Perdi meu porto. Percorro à esmo a imensidão de meus pensamentos.

Mergulho no alento da lembrança. Revivo cada toque, cada olhar, cada palavra. Permaneço neste espaço de tempo que me traz você. Ouço sua voz em meu ouvido, sussurrando que me deseja. Como nenhum outro. 

Transporto-me para seus braços. Sintonizo-me em seus sonhos.

E, no entanto, são mesmo os nossos sonhos ou simplesmente minhas memórias? Me pego distraída na incerteza falível de não saber se o que se apresenta é o desejo, mesmo que coberto com as cortinas do passado, ou se é a realidade da sintonia do meu querer e do teu.

Inundei a noite. E o sol já se apresenta. Quem sabe, agora, os primeiros raios de luz possam enxugar esse rio de aflição e, finalmente, eu amanheça em mim. Renovada. Com a nitidez alva de um novo dia.